Serei só eu?

 23 de Janeiro de 2024

Hoje o dia não começou bem...depois de uma noite cheia de dores à conta dum torcicolo ou algo do género, lá fui eu limpar o apartamento do extra que vos falei ontem. 

Entre esfreganços de paredes e armários,  lá fui pensando na vidinha e em como ela me trouxe até aqui.

Serei só eu a achar que podia ter feito mais com a minha vida?

Eu sempre gostei de escola. Adorava até! Para mim, um sítio onde eu pudesse aprender mais sobre tudo, ler livros, fazer amigos e brincar, era perfeito. Nada me dava mais satisfação do que chegar a casa com prémios porque tive a melhor composição ou sabia melhor a tabuada. 

Nunca fui sobredotada e também nunca fui uma nerd. Sempre tive o que chamam de " ciência de ouvido", pois tudo o que era dito na aula, mesmo estando distraída, eu decorava e punha em papel nos testes. Sim, só nos testes porque os meus cadernos eram uma vergonha entre sumários alternados, páginas rasgadas para mandar bilhetes às colegas e joguinhos para ver com qual dos meninos tinha maior compatibilidade.

Acho que perdi o interesse no secundário com o meu primeiro namorado oficial, o João Vitor. Alto, moreno, corpo já bem definido para um adolescente de 15 anos, um olhar doce com uma pequena cicatriz por cima de um dos olhos e um sorriso muito cativante apesar de meio torto. 

Foi paixão à primeira vista! Ele andava sempre acompanhado de um primo, o Carlos, um loirinho atlético com ar de galã estilo Leo DiCaprio, e quando os dois passavam, as raparigas da escola ficavam loucas. Nunca na minha vida imaginei que eu e a minha melhor amiga na altura fossemos capazes de chamar a atenção daqueles dois. 

A verdade é que em belo dia, no intervalo cruzamo-nos com eles no pátio e o Carlos apresenta-se descaradamente, apresentando o João, obviamente. Íamos desfalecendo! Imagina, duas adolescentes com as hormonas descontroladas a conhecerem os bombons que todas queriam... sentiamo-nos no céu!

Em poucos dias, o Carlos e a Ana começaram uma espécie de relação aberta que eu nunca entendi bem e eu e o João fugíamos até ao parque de Nossa Senhora dos Anjos, na Lourinhã,  para dar uns beijinhos envergonhados até ao dia em que ele me pediu em namoro. Aí senti-me no topo do mundo! Andava de mão dada com ele pela escola, a sentir-me uma campeã porque com os meus 40 kgs de osso e 1,40m , consegui arrebatar o coração do bonitão. 

Um dia, fomos os 4 da vida airada para minha casa. A minha mãe estava a trabalhar, a minha irmã na escola e eu achei boa ideia termos os quatro um pouco de privacidade e conforto. 

A Ana e o Carlos foram para o quarto da minha mãe, sabe-se lá fazer o quê e eu fui para o meu quarto com o João. Sei que já estás à espera de ouvir uma história picante mas...lamento, não há. O mais incrível que se passou ali foi ele ter tirado a t-shirt porque estava com muito calor.

Antes que avançasse mais do que devia, eis que ouço uma chave na porta e entro em pânico, empurrando o pobre rapaz para trás do cortinado do quarto. Pormenor: a janela era pequena e alta e o cortinado só o tapava até à cintura. Estás a imaginar o cenário, não estás? Podes rir, que eu deixo.

Voltando à porta, era a minha irmã que, apercebendo-se que estava ali mais alguém comigo, empurra a porta do meu quarto e dá com umas pernas a saír de trás do cortinado. Perguntou quem era e eu só respondi que era o João. Ouvindo o seu nome, o dito põe a cabecinha e a mão fora do cortinado e diz um olá, muito envergonhado. Quando parares de imaginar a cena e rir, eu conto o resto. 

Já está? Óptimo.

Escusado será dizer que foi sol de pouca dura. Passadas umas semanas, lá decidiu trocar-me por uma menos inteligente, com menos mau feitio mas muito mais bonita e muito mais experiente, se é que me entendes.

Chorei baba e ranho dias a fio, a minha auto-estima sofreu um dos maiores abalos de que tenho memória e não queria nem ouvir falar em rapazes. A primeira vez que vi o João e a sua nova amiga a beijarem-se, esmaguei uma lata de coca-cola ao ponto de a partir e cortar a mão, tal era a raiva e o desgosto.

Durou muito? Claro que não! Tinha 15 anos... passados uns meses já tinha arranjado outro namorico; e depois desse, outro e outro e outro... 

Nunca me considerei uma mulher bonita mas a verdade é que alguma piada eu devia ter porque raramente estive sozinha... A esta hora já me estás a chamar de tudo mas sabes que mais? Nessa altura, eram namoros inocentes. Uns beijinhos, uns passeios de mãos dadas e, no máximo, umas apalpadelas envergonhadas, escondidos num canto qualquer ou na casa de alguém. 

Pelo menos por mais um ano. Aos 16 a minha vida mudou.

Mas isso é história para outro dia. Hora de dormir.

Até amanhã, pessoal.

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